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Antonio Carlos Costa

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Estivemos hoje (quinta-feira passada) no enterro do menino Herinaldo Vinícius de Santana, de apenas 11 anos, que teve a vida interrompida por um tiro ontem à tarde, numa operação policial na favela Parque Alegria, no Caju, Zona Norte do Rio.

Alguns moradores, a maioria com receio de mostrar o rosto, expressaram sua revolta segurando cartazes, que levamos para o enterro, com os nomes de crianças mortas por "bala perdida" no Rio. Percebemos no enterro a presença de três sentimentos.

Medo. Jovens dizendo que temem protestar e sofrer represália. Muito grito contido. Grande desejo de ser ouvido e compreendido.

Indignação. Todos profundamente revoltados com o tratamento que recebem por parte do poder público. Sentimento de abandono. 

Dor. A mãe, inconsolável. A irmã, transtornada. O irmão, carregado por moradores por se recusar deixar a cova na qual o caixão com o corpo do menino Herinaldo havia sido posto. A comunidade, chorando. 

Estamos diante de um dos momentos mais dramáticos da história da segurança pública do Rio de Janeiro. Nas praias, o temor de arrastões. Nas favelas, o luto pelas mortes de meninos e meninas. 

A última coisa que precisamos é de gente que estimule a violência, dissemine a justiça com as próprias mãos e promova o conflito de classe. Não podemos subestimar o efeito explosivo de um linchamento de garoto pobre numa praia qualquer do Rio. Mobilizar Estado e Município para proteger o lazer na praia, o que é justo sob todos os aspectos, mas nada fazer para proteger o direito à vida na favela, pode levar a violência a assumir novo e assustador formato. 

Estamos vivendo momento de grave desordem social. Uma química explosiva opera no Rio de Janeiro: Uma sociedade profundamente desigual, na qual os desiguais vivem lado a lado, sob as influências de uma cultura de consumo, num contexto de guerra às drogas e com um Estado fraco, cujas instituições não funcionam como deveriam.

Na ponta, matando e morrendo, nossos policiais, vistos pela maioria de nós como solução para a preservação a fórceps da harmonia social. Nunca tantos esperaram irresponsavelmente tanto de tão poucos.

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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