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DENSO NEVOEIRO DESCE SOBRE O BRASIL

By 3 de dezembro de 2015 No Comments

Enterro-jovens-Costa-Barros

Um denso nevoeiro desceu sobre o Brasil. A presidente vai cair? Renan, Cunha e Temer perderão seus mandatos? Teremos manifestações de rua? Serão violentas? Qual lado da disputa política terá nas ruas manifestantes mais aguerridos? A economia sucumbirá de vez? Mais pobres retornarão à miséria? Milhões perderão seus empregos? Alguma tragédia de grande proporção levará às ruas revoltosos prontos para o quebra-quebra, neste cenário de fragilidade política? Haverá inundações e mortes nas tempestades de verão? Mais chacinas nos aguardam? As investigações da Lava-Jato envolverão mais políticos importantes? Haverá clima para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016? Quanto tempo durará a crise política? Os militares se lembrarão do seu passado recente, evitando assim repetir os erros que cometeram? 

Esta semana, estive no enterro de cinco jovens negros, moradores de favela, que foram metralhados por policiais. Vi o pobre surtar de dor. Saudade, revolta, perplexidade. Todos os dias recebo mensagens dos parentes das vítimas da chacina de Osasco. Gente nascida na exclusão e privação, e que agora vive no luto. Para eles, o Brasil é uma fantasia macabra. Nada é real. Todos encenam. Não há sociedade, apenas famílias. 

Acima desses explorados -que levam a economia brasileira nas costas, acordando às 5h, gastando quatro horas do seu dia no trânsito, trabalhando de oito a dez horas diariamente, seis vezes por semana-, os dependentes químicos do poder, viciados em mandar e ganhar dinheiro fácil, mais obcecados em se perpetuar nos seus cargos do que em servir ao povo. 

Como nos conduzir nesse nevoeiro? Ouvir de modo desapaixonado todos os lados, amando mais a justiça e a verdade do que seus gostos pessoais. Fugir de elevar um lado da verdade à condição de verdade completa. 

Não se deixar manipular. Fatos serão distorcidos. Mentiras, plantadas. Há muito interesse em jogo. Tanto por parte de quem não quer sair, quanto por parte de quem quer entrar. Ao ler algum articulista, blogueiro, cientista político, pergunte para quem ele está trabalhando. Mas, se o Diabo disser a verdade, ajude aos que estão ao seu redor a separarem-na da sua surpreendente origem.

Seja "pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar". Ore pelo Brasil, que com sua violência, corrupção, mentira, desigualdade, exploração, tem provocado a Deus. 

Não adianta esbravejar pela internet, romper com antigas amizades, disseminar contenda e praguejar contra o seu país. Como alguém já disse, não pense no que o Brasil deveria fazer por você, não fez e talvez jamais faça; mas sim, no que você pode fazer por ele.

Socorra o pobre, faça trabalho voluntário, semeie concórdia, proteste nas ruas, não aceite violação dos direitos humanos na sua cidade, leia jornal, denuncie a mentira, promova a verdade, assine petição, ajude a manter a ordem pública, acate as decisões tomadas em lei, remunere com justiça sua empregada doméstica, seja gentil com o garçom que o serve, não pague propina, não financie a compra de armas e munição por parte de facções criminosas, mostre que você ama a humanidade amando sua família, exerça sua profissão com excelência. Retorno? Não se ver naquele que você critica, ter o prazer de viabilizar a vida humana e não perder o ser numa cultura que banaliza o mal.   

O Brasil não é uma abstração. É mais do que um ente político, que muitas vezes nos causa repulsa. É essa gente que acorda cedo e  lota trens, vans e ônibus; a fim de, por quase nada, servir a você e a mim, sem que a notemos.

 

 

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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