Teologia

O DECRETO DIVINO E A ANSIEDADE HUMANA – PARTE II

By 28 de janeiro de 2009 No Comments

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(continuação) …Acontece
que todos querem viver. Viver uma vida que seja longa (muito embora sem
preocupação, na maioria da vezes, que essa mesma vida seja boa). Por isso são
tomados de ansiedade. Essa ansiedade não surge em um vácuo. Todos temos que
reconhecer (e esse problema intelectual tem que ser enfrentado pelo cristão)
que esses temores resultam do medo de que aconteça com a própria vida o que
percebe-se que acontece com a vida de milhares de passarinhos e seres humanos,
a morte que vem e faz o pardal cair do céu e o corpo de um homem descer à
sepultura. Cristo admite que essa é uma marca da presente vida. Essa vida tem
um tempo fixado. Pessoas morrem. Nossos olhos contemplam inúmeras tragédias
todos os dias.

Bom,
ocorre que todos tratam de fazer alguma coisa para evitar a morte e os demais
infortúnios da vida. E o que tratam de fazer é feito com muita carga de
ansiedade. Passamos a maior parte do tempo antevendo tragédias e tratando de
evitá-las. A preocupação assume o controle. Porém, o que ocorre quando a vida é
controlada pela ansiedade? A mente torna-se mais ocupada com a morte do que com
a vida. O céu mais azul é tornado cinzento. Nas maiores alegrias surge invariavelmente a pergunta que
não quer calar: até quando? Até quando terei meus filhos ao meu redor? Será que
serei privado da sua companhia? Como envelhecerei? Porventura me tornarei um
inválido dependente da misericórdia humana? Não há limite para as indagações do
medo, pois tantas quantas são as apreensões humanas tantas são as reais
experiências trágicas vividas por milhares de pessoas.

A
conduta humana quando governada pela ansiedade inevitavelmente conduz o homem
para a prática do pecado. Por que essa é uma experiência invariável? Porque o
mesmo motivo que leva um ser humano a viver ansioso o leva para a prática do
mal. A raiz das preocupações é a mesmíssima raiz do pecado. Se fizermos um
exame minucioso de ambas encontraremos no fim da seqüência de causa e efeito a
incredulidade. Um ser humano deixa-se tomar pelo medo porque não confia em
Deus. Um ser humano peca por que não confia em Deus. Tornamo-nos ansiosos
porque duvidamos que Deus possa levar-nos à felicidade através do seu decreto.
Tornamo-nos pecadores porque duvidamos que Deus possa levar-nos à felicidade
através da sua lei. Então mentimos porque tememos que a verdade nos prejudique,
fraudamos porque tememos que nem mesmo com o suor do nosso rosto possamos comer
o pão, adulteramos porque tememos que a fidelidade conjugal não nos realize
afetivamente e pecamos das mais diferentes formas porque julgamos que se não
dermos o nosso jeito Deus não será suficiente para fazer-nos felizes.

Isso
tudo dá muito trabalho. Muita preocupação e muito pecado. Muito barulho para
nada. Completa inutilidade. Porque nada disso acrescenta um côvado ao curso da
nossa vida. Esse é o ponto. Não há o que se fazer. Antes do sol se por hoje o seu
coração pode parar de bater. Não há nada que você e eu possamos fazer quanto a
isso. O realismo de Cristo é chocante. Ele não está dizendo que não devemos
ficar preocupados porque Deus cuida de nós como cuida dos pardais. Ele já disse
isso e pela graça divina falou a verdade. Porém, aqui ele diz que nossas
preocupações e pecados não prolongarão o nosso tempo de vida nesse planeta.

O
que tudo isso significa? Significa que você e eu vamos morrer. Orações não
serão ouvidas. Pediremos a cura e ela não virá. Por que não virá? Porque chegou
a hora de partimos desse mundo. Nem um milímetro a mais poderá ser acrescentado
por nós. Esse côvado pode representar mais um ano para o que está para morrer
com apenas dezoito anos de vida, ou mais alguns meses para a mãe que quer ver a
filha se casar, ou mais alguns anos para o pastor que gostaria de levar mais
pessoas a Cristo.

Nada
é romântico no cristianismo. Pastores podem tentar romancear as coisas na
perspectiva de encher igreja. Mas, esses mesmos homens terão que explicar para
a mãe que teve que enterrar a filha o porquê de as promessas feitas não terem
se cumprido. Recentemente, uma irmã em Cristo a quem tanto amo, falava-me das
dores insuportáveis que tem sentido no corpo e do seu convívio com o silêncio
de Deus. O que é pedir para Deus retirar uma dor e nem remédio ou ajuda médica
prestarem ajuda alguma, e muito menos o milagre acontecer? Eu vi, o tão amado
reverendo Antonio Elias morrendo e, e em meio a muitas dores, sendo levado a
dizer: “Essa mensagem que diz que o
crente não passa por sofrimento nessa vida é tudo balela”.
Lembro-me de ele
também me dizer, no alto dos seus 97 anos de vida: “Eu nunca na minha vida pensei que um dia teria que passar pelo vale da
sombra da morte”.

Dizer
que não temos que lidar nessa vida com as decisões soberanas de Deus que
contrariam a nossa vontade, por representarem sofrimento para o crente,
significa despreparar as pessoas para a vida, levá-las a duvidar do evangelho e
despertar no coração dúvida quanto ao caráter de Deus.

Aqui
chegamos numa encruzilhada. Várias estradas nos são apresentadas. A primeira é
a da rebelião. Significa nos juntarmos ao Diabo, seu anjos e milhares de homens
e dizermos que não há sentido servir a um Deus arbitrário. A segunda é a da
resignação estóica. A sujeição da vida ao destino. Aqui não há culto, louvor e
ações de graças. Só ira contida por uma razão assustada e perplexa que conduz o
homem a crer que é idiotice tentar mudar o imutável. Mas, há um terceiro
caminho. Aquele no qual o côvado não é acrescentado à vida e o coração ainda
assim se rejubila.

Para
que o crente encontre motivo de louvor em face da realidade do predomínio
acachapante da vontade soberana de Deus é de fundamental importância que junte
o verso 26 ao 27. No versículo 27 deparamo-nos com uma vontade soberana que
determina todo o curso da nossa história. Porém, no verso 26 nos vemos perante
um amor que considera a vida de um filho de Deus mais preciosa que o universo
inteiro.

O
cristianismo não nega que há um elemento de arbitrariedade no governo soberano
de Deus. Ele age sem pedir conselho ou licença. Lá está o crente orando e
nenhuma resposta. O côvado não vai ser acrescentado à vida. Porém, quem é esse
que terá que partir desse mundo deixando para trás os que ama, cuja oração não
foi ouvida, que teve a própria duração da sua vida determinada por Deus à sua
revelia? Cristo revela que é alguém amado. Amado com um amor que Deus não sente
por mais nenhuma outra criatura. As decisões que esse mesmo Deus toma com
relação aos  seus servos sem
consultá-los representam o exercício do arbítrio do amor. Um amor que tem que
ser arbitrário, pois tem reservado para aqueles em cuja vida se fixou aquilo
que eles próprios por si mesmos não seriam capazes de escolher.

Aqui
entra a decisão de tomar o caminho inverso do que foi tomado pelo inferno.
Confiar. Confiança implícita num Deus que nunca determinará para a vida de um
filho seu o que esteja aquém das exigências do seu amor e sabedoria.

O
que Cristo está propondo é o abandono da vida. Não a desistência de viver. Mas,
a livre escolha de viver com confiança na palavra de Deus, entregando-se ao seu
amor , anelando nem a vida nem a morte, mas estar com Cristo. A resposta mais
sensata é esse abandono no amor divino. A alternativa que resta é a
rebelião ansiosa e tola. Tola, pois além de ser infrutífera é capaz de duvidar
de um ser santo e bom.

Antonio Carlos Costa

Mais um trecho do livro que estou para lançar, Ansiedade: Quando o Homem Duvida do Caráter de Deus.

Ps. Já está para sair a reedição do livro Enquanto o Sonho Não Nasce: Por Que Deus Adia a Realização dos nossos Sonhos?

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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