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Antonio Carlos Costa
John StottTeologia

O ÚLTIMO ESCRITO DE JOHN STOTT (III)

By 19 de maio de 2012 No Comments

4123396346_e1cc9782f5_mO discípulo de Cristo deve ter preocupações políticas? Faz sentido ele gastar o tempo que poderia ser dedicado ao evangelismo para lutar pela justiça social? Há relação entre vida cristã e luta por ordem econômica que ajude a eliminar a desigualdade? Para John Stott não havia a mínima incompatibilidade entre essas esferas de vida.

Ele se indignava com a fome que faz secar a vida de bilhões de seres humanos. Estimulava, assim, a igreja a se envolver em ações de desenvolvimento humano: "as pessoas com frequência morrem de fome porque não podem comprar comida, porque não têm rendimento, não têm oportunidade para produzir, e porque não têm acesso ao poder. Portanto, aplaudimos a crescente ênfase das agências cristãs no desenvolvimento, de preferência à ajuda simplesmente". Certamente, ele haveria de apoiar o bolsa família do Governo Federal ("onde vidas humanas estão em jogo, nunca deveria haver carência de fundos"), mas ao mesmo tempo pressionando o poder público a investir na indepedência do pobre, tanto em relação a um assistencialismo que o torna economicamente depedente do Estado, quanto em relação ao socorro incerto da sociedade. 

Pessoas podem cair na pobreza pelos mais diferentes motivos: tragédias naturais, doenças, conflitos pessoais, falta de capacidade de administrar a própria vida. Mas, na maioria das vezes, o que ocorre é vidas humanas serem privadas de recursos para viver com dignidade por força de estruturas sociais malignas. Daí, a necessidade imperiosa de o cristão ver a pressão política como expressão de amor. Ressalta John Stott: "Pobreza e riqueza excessiva, militarismo e indústria armamentista, e a distribuição injusta de capital, de terra e de recursos constituem problemas que têm a ver diretamente com poder e impotência. Sem uma mudança de poder através de mudanças estruturais, esses problemas não poderão ser resolvidos". 

O envolvimento político é inevitável. É impossível plantar igrejas na "polis" e não se envolver de uma maneira ou de outra com política: "A igreja, juntamente com o resto da sociedade, está inevitavelmente envolvida na política, que é 'a arte de viver na comunidade'. O servos de Cristo precisam expressar o senhorio dele em seus compromissos políticos, econômicos e sociais, e em seu amor por seu próximo, participando do processo político". Stott apresenta quatro caminho de ação política por parte da igreja: 

1. Orar.

2. Educar. "Procurar educar o povo cristão nas questões morais e políticas envolvidas, esclarecendo assim sua visão e levantando suas expectativas".

3. Agir. "Alguns cristãos são chamados a exercer tarefas importantes junto ao governo, no setor econômico ou em assuntos de desenvolvimento. Todos os cristãos devem participar ativamente do esforço pela criação de uma sociedade justa e responsável". Vale a pena ressaltar importante declaração, que apresenta uma implicação do viver em santidade: "Em algumas situações, a obediência a Deus exige resistência a um sistema injusto". 

4. Sofrer. "Como seguidores de Cristo, o Servo Sofredor, sabemos que o serviço sempre envolve sofrimento". Fica a questão: que preço o protestantismo brasileiro está pagando pelo seu compromisso com a causa da justiça social? 

Portanto, não há incompatibilidade entre compromisso pessoal e ação política, obras de filantropia e protesto a fim de que haja mudança sistêmica. Um precisa do outro: "O compromisso pessoal em termos de mundança de estilo de vida não será eficaz se não houver ação política, visando à mudança dos sistemas injustos. Mas a ação política sem compromisso pessoal é inadequada e incompleta". De fato, quem trabalha em comunidades pobres é confrontado todos os dias com essa realidade. Por um lado, a demanda imediata, que requer a ajuda efetiva, pessoal, direta, tal como, levar cesta básica para a casa de uma mãe pobre, abandonada pelo marido e com quatro filhos para criar. Por outro lado, a decisão de bater à porta do poder público a fim de que este faça o que nenhuma igreja está apta para fazer. Como, por exemplo, fazer a limpeza e dragagem de um rio de esgoto puro que corta a favela, no qual crianças nadam por falta de acesso à área de lazer? 

Tudo isso está intimamente ligado ao evangelismo: "Quando os cristãos se importam uns com os outros, e com os pobres, Jesus Cristo se torna mais visivilmente atraente". Na verdade, a compaixão pelo pobre é uma das metas principais do evangelismo. Somos justificados pela graça mediante uma fé que precisa ser justiificada pelas obras. A principal obra da fé é o amor misericordioso: "Aqueles que serviram a ele, servindo aos mais pequeninos de seus irmãos carentes, serão salvos, pois a realidade da fé que salva é visível no amor serviçal". Essa é uma questão que deve confrontar todo plantador de igreja e evangelista: queremos que tipo de crente apareça lá na ponta, como consequência dos nossos esforços? Estamos nos dedicando a plantar e nutrir que tipo de igreja? Martin Luther King vai bater à porta da casa do membro da sua igreja, chamando-o para marchar com ele contra a segregação racial, e ele vai dizer não, porque só consegue ver o cristianismo em termos de convidar pessoas a participar do grupo pequeno da sua igreja? 

Que esperança podemos ter de que essas mudanças ocorram num mundo caótico como este em que vivemos, composto na sua maioria por pessoas não regeneradas? A mesma que levou homens e mulheres no passado a sonhar com a democracia, o fim de regimes absolutistas, a liberdade da mulher, término da escravidão. O que não podemos é usufruir desse legado, que custou o sangue de muitos, e fincar o pé num pessimismo injustificável, por ser desalmado e não resistir aos fatos históricos. Afirma John Stott: "Também estamos convencidos de que a presente situação de injustiça social é tão repulsiva a Deus, que uma mudança bem ampla é necessária. Não que creiamos em utopias terrestres. Mas tampouco somos pessimistas". 

 

Antônio C. Costa

 

Ps. Continuo mais tarde. 

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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