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Antonio Carlos Costa
John StottTeologia

O ÚLTIMO ESCRITO DE JOHN STOTT (IV)

By 6 de junho de 2012 No Comments

4868543996_feecb844dd_mO capítulo sete é o mais emocionante de todos. No seis, a ênfase é posta na necessidade de os cristãos buscarem equilíbrio de vida. Ele usa as mais conhecidas metáforas bíblicas sobre a igreja, a fim de mostrar os diferentes aspectos da eclesiologia do Novo Testamento, construindo assim um quadro harmonioso que pode trazer mais equilíbrio à prática do cristianismo.

A igreja é comparada: a bebês famintos pelo leite espiritual, a pedras vivas que compõe o templo de Deus, a sacerdotes cujo dever é adorar, a um povo chamado para pertencer exclusivamente a Deus a fim de revelar as perfeições do seu Criador, a estrangeiros que não têm morada fixa neste mundo e a servos que devem viver em obediência ao seu Senhor. John Stott ressalta a importância de sabermos quem somos a fim de ajustarmos nosso comportamento ao que sabemos ser verdadeiro sobre a nossa vida.

John Stott faz uma exposição rara sobre sua vida. Ele sempre falou pouco sobre si mesmo nas suas pregações e escritos. No penúltimo capítulo, contudo, ele fala das lutas pessoais que teve que enfrentar na velhice. É o relato comovente de quem expõe suas fraquezas a fim de desfazer qualquer espécie de visão idealizada sobre sua vida.

Há dois relatos de experiências humilhantes. Na manhã do dia 20 de agosto de 2006 ele tropeça numa cadeira, cai no chão, vindo a fraturar o quadril (o que o levou para a mesa de cirurgia a fim de botar uma prótese) e ali permaneceu imóvel: "Não podia me mover, muito menos levantar-me sozinho, percebi naquele momento que havia quebrado ou deslocado o quadril. Entretanto, consegui apertar o botão de emergência e alguns amigos vieram imediatamente em meu socorro". Ele conta que se ver "esparramado" no chão, completamente dependente dos outros", o ajudou a ver que "este é o lugar onde, de vez em quando, o discípulo radical precisa estar. Deus pode usar a dependência gerada por essas experiências para causar em nós profundo amadurecimento". 

O segundo testemunho pessoal de contato com a fragilidade humana, tem a ver com "a instabilidade pessoal que algumas vezes a enfermidade física traz à tona e que se manifesta pelo choro". Stott relata a descrição feita pelo professor de ética e perinatologia do hospital-escola da Universidade de Londres, John Wyatt, que o visitou no hospital e testemunhou da angústia do grande teólogo inglês: "Nos primeiros dias depois da cirurgia, John Stott foi acometido por episódios de desorientação e por distintas e alarmantes alucinações visuais. Além disso, havia a inevitável humilhação de receber os cuidados da enfermagem, e a preocupação com o futuro. Enquanto estávamos no hospital, conversando e compartilhando, lembrei-me da minha própria experiência de doença e caos, alguns anos antes. Lembro que estávamos em lágrimas, dominados por um poderoso sentimento comum de vulnerabilidade e debilidade humana. Foi uma experiência dolorosa, mas libertadora".

Ele menciona também, a descrição feita pela sua fisioterapeuta, sobre outro momento de contato com sua humanidade, que o fez chorar (lembro-me de ele haver dito no seu comentário sobre II Timóteo: "A graça de Deus não nos desnaturaliza"): "Foi logo após o retorno para casa, depois de sua convalescença. John havia acabado de voltar para descansar em uma cadeira, quando, de repente, estremeceu e suspirou profundamente. Fui ver se ele se sentia mal e percebi que as lágrimas fluíam livremente. Ele estava vivenciando uma arrebatadora liberação de toda a carga emocional e dos desafios dos eventos recentes, que ele havia pacientemente suportado sendo 'um paciente'. Não há palavras a serem ditas durante uma experiência tão profunda -somente uma empatia e uma confortante mão firme em seu ombro. Pouco a pouco, enquanto a emoção cedia, assegurei a ele que não se tratava de uma experiência incomum em tais circunstâncias e que as lágrimas são um alívio e uma forma de cura muito valiosa".

A que conclusão ele chegou? Ele afirma: "Viemos a este mundo totalmente dependentes do amor, do cuidado e da proteção de outros. Passamos por uma fase na vida em que outras pessoas dependem de nós. E a maior parte de nós deixará este mundo dependendo totalmente do amor e cuidado dos outros. E isso não é nenhum mal ou realidade destrutiva. É parte do plano, da natureza física que nos foi dada por Deus… todos nós estamos destinados a ser um peso para os outros. Você está destinado a ser um peso para mim e eu estou destinado a ser um peso para você… na pessoa de Cristo, aprendemos a dependência que não destitui -não pode destituir- uma pessoa de sua dignidade, de seu valor supremo".

O que acrescentar a tudo que foi dito? Você já aprendeu que o orgulho não combina com a nossa condição? Baixe a bola, diria num português bem popular, lide com humildade com o próximo e a vida, e sobretudo, aprenda a depender de Deus e de sua misericórdia. É pela fé neste amor que atravessemos o vale de lágrimas, vendo o invisível, esperando contra a esperança.

Podemos até tentar ocultar nossas fraquezas de nós mesmos e do próximo. Mas, chega o dia em que a vida nos põe nus. Às vezes, literalmente, com gente limpando nossas fezes. Que não haja espaço na nossa vida para a propaganda enganosa, que faz pessoas pensarem ao nosso respeito o que não corresponde à realidade dos fatos.

 

Antônio Carlos Costa

 

 

 

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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