2015-12-10T145514Z_545738596_GF10000261191_RTRMADP_3_BRAZIL-VIOLENCEO Brasil está para viver um período de intensas manifestações públicas. Brasileiros demonstram intenção de ir às ruas dizendo lutar pela democracia. Uns, julgando que o fazem defendendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff; outros, lutando pela sua permanência no mais alto cargo da República. Tudo isso é melhor do que a apatia. 

Apatia política é péssimo para a democracia. O seu oposto, a paixão cívica orientada pela razão e pela justiça, pode levar a grandes transformações históricas. A classe governante tem que sentir sempre a chapa quente. Política não avança sem pressão. Como diz Rousseau: "Quando alguém diz com respeito aos negócios do Estado, 'que me importa?', pode-se ter certeza de que o Estado está perdido".

Como seria melhor, porém, se nossa indignação democrática não fosse espasmódica, sazonal e egoísta. Longe de dizer que esse seja o caso de todos que manifestam estar absortos no tema do impeachment. No Brasil, contudo, dificilmente protestamos quando nossos interesses particulares não estão envolvidos. 

Veja 2015. Preciso trazer a lume a fieira de desgraça que se abateu sobre a vida de cidadãos brasileiros, e que não contou com o nosso mais veemente protesto? Gente pobre sofrendo violação de direito, e ruas completamente vazias. 

Por que estamos dispostos a ir às ruas protestar contra ou a favor do impeachment? Talvez você esteja dizendo: "Porque nunca vi tanta corrupção no Brasil! Chega desse projeto de poder bolivariano que arrasou com a economia do país! A presidente mentiu à nação! O impeachment é justo!" Ou então, "não aceito golpe contra uma presidente democraticamente eleita! Não vou aceitar também esse ataque contra a democracia desferido por essa elite que nunca fez nada pelo pobre!" 

Em São Paulo, 19 pessoas foram mortas numa chacina ocorrida em Osasco. Ruas vazias. No Rio, cinco crianças morreram em tiroteio. Ruas vazias. Cidades nordestinas batendo todos os recordes de assassinato. Ruas vazias. Mariana? Muita discussão nas redes sociais. Ruas, porém, vazias. 

O Brasil jamais será um país justo enquanto só formos às ruas movidos pelo nosso egoísmo.

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Teólogo, jornalista e ativista social. Plantador da Igreja Presbiteriana da Barra (Rio de Janeiro) e fundador da ONG Rio de Paz. Nascido no Rio de Janeiro em 1962. Casado com Adriany. Pai de três filhos: Pedro, Matheus e Alyssa.

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